| Mais do que ao conteúdo, é preciso estar atento à forma como muitos textos apresentam suas mensagens para melhor compreendê-los | |
Sírio Possenti Mas há muitos textos cuja finalidade não é comunicar, muito menos informar. É perfeitamente possível que eles também deem um recado, tenham um "conteúdo" ou sejam uma tomada de posição (sobre a vida, a poesia, etc.). Mas o fundamental, nesses casos, não está no recado, mas na maneira de dar este recado. Melhor: o recado é o que é especialmente porque é dado de uma forma determinada. Considere-se o slogan da Petrobras: "o desafio é a nossa energia". Que não se pergunte a ninguém, por favor, qual é o desafio da Petrobras. Ou, pelo menos, que não se pergunte só isso. É que esse slogan é o que é exatamente porque tem uma dupla leitura. E o recado do slogan é a dupla leitura, não apenas uma delas: o slogan diz que o desafio da empresa é a energia, isto é, encontrar, produzir a energia, a nossa energia ("nossa" quer dizer do país, provavelmente). Um dos sentidos é, então 'temos o desafio de produzir a energia de que o país precisa". Mas o outro sentido é tão importante quanto esse, e ele se refere ao funcionamento da empresa: o desafio a que a empresa é submetida é a energia da empresa - aqui, "nossa" quer dizer 'da empresa' (como quem diz: somos movidos a desafios, é o desafio que nos move, ele é a nossa energia - e não o sucesso, ou os salários, etc.). Como esse efeito é obtido? Um dos sentidos do verbo "ser" é de inclusão de uma classe em outra ("os homens são mortais" quer dizer que os homens pertencem ao conjunto das criaturas mortais, classe que contém outros elementos além dos homens, como os dinossauros e as pulgas...). Outro efeito é o de identificação. Um exemplo é "Brasília é capital do Brasil", que não é lida como significando que Brasília é uma das capitais do Brasil, mas como equivalente de "a capital do Brasil é Brasília" (faço de conta que não se coloca aqui um clássico problema, o da diferença entre "Brasília é capital do Brasil" e "Brasília é Brasília", que Frege teria resolvido). Ora, o slogan joga com os dois sentidos, captáveis em duas formulações: 'o desafio é nossa energia' e 'a energia é nosso desafio'. Em cada caso há um implícito, que coloco entre parênteses: 'o desafio é nossa energia (a que nos move)', '(produzir) energia é nosso desafio'. Forma Este tipo de leitura, que leva em conta explicitamente a forma, é ainda mais importante em textos cuja finalidade principal não é "uma mensagem" (embora ela possa existir e ser relevante), mas "ser poesia" ou "ser piada". Considere-se o seguinte poema, que se tornou bastante conhecido, cujo título é RECEITA DE HERÓI (de Reinaldo Ferreira): "Tome-se um homem feito de nada Como nós, em tamanho natural Embeba-se-lhe a carne Lentamente De uma certeza aguda, irracional Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim Agite-se um pendão E toque-se um clarim. Serve-se morto" O título ajuda a ler o texto. Pode-se verificar que as quatro partes do poema correspondem a partes de uma receita culinária (resumo: pegue dois quilos de costela, tempere com sal grosso, (ponha na grelha), deixe assar durante duas horas e sirva com mandioca cozida). "Ponha na grelha" está entre parênteses porque é uma etapa da receita que não tem correspondente no poema. Uma das leituras deste poema, digamos, a informativa, mostrará que ele considera que o herói é um homem comum, que, mais ou menos fanatizado, é levado a morrer. Palavras como "pendão" e "clarim" indicam que se trata de um herói (ou de um anti-herói) militar: um anônimo que é levado a morrer por uma causa (de outros, talvez). O poema também diz, de certa forma, que heróis deste tipo podem ser produzidos em série. Segundo esta leitura, trata-se de um herói diferente dos que cultivamos habitualmente, que são uma espécie de super-homem ou semideus (inspirado talvez nas epopeias). Mas esta leitura é apenas meia leitura. Ou menos do que isso. Porque o fundamental nesse poema é sua forma, a de receita, que é exatamente o tipo de texto que ensina a fazer coisas em série. Se há uma mensagem, ela é apresentada da melhor das maneiras conhecidas, em um texto de grande eficácia "pragmática". Explicitar esse fato é o que mais importa. E, convenhamos, é algo difícil de fazer em testes ditos objetivos... Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto) |
Segredos, mistérios, curiosidades... da nossa Língua Portuguesa.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Formas que se encaixam
Arquitetura das ideias
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terça-feira, 1 de novembro de 2011
Pleonasmos comprometem objetividade do texto dissertativo
Repetição de ideias pode descontar meio ponto na nota total da redação.
Projeto Educação dá exemplos de redundâncias que são vícios de linguagem.
domingo, 23 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Está em dúvida sobre o uso de "mesmo" ou "mesma"?
Mesmo
Você sabe utilizar o pronome?
Solange L. Marcondes*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A célebre plaquinha e o erro crasso que geraram comunidades no Orkut |
"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar". A frase, colada ao lado da porta de elevadores em cada andar dos edifícios, traz o pronome "mesmo" empregado de maneira incorreta e virou motivo de piada na Internet.
Quem lê a frase percebe que ela é um pouco "estranha": quem é "o mesmo", que poderia estar parado no andar? Mas o que muita gente não sabe é que o motivo dessa estranheza é o emprego inadequado da palavra.
A placa que encontramos na porta dos elevadores é consequência de uma lei municipal aprovada pela Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. A norma obriga todos os edifícios da cidade a terem a tal placa na porta dos elevadores. E a lei estendeu-se por todo o país, difundindo o erro de gramática em edifícios de todo o Brasil.
O motivo do erro é simples. Diz a gramática que não se deve usar a palavra "mesmo" como pronome pessoal. A frase colocada nas placas dos elevadores deveria ser corrigida, e a palavra "mesmo" substituída por "ele": "verifique se ele se encontra..."
Esse erro ocorre porque, para evitar a repetição, muita gente utiliza "o mesmo", "a mesma", já que os pronomes "ele" e "ela" devem ser usados com cuidado. Na frase: "Conversamos com o juiz e o mesmo afirmou que...", tem-se a impressão de que não existe erro, uma vez que, para muitos, esse é um exemplo que segue rigorosamente a norma culta. No entanto, frases como essa são deselegantes. O melhor é substituir a palavra "mesmo" por um pronome pessoal "e ele afirmou que..." ou por um pronome relativo "o qual afirmou que...".
Outro exemplo corriqueiro: "Favor desconsiderar o nome do aluno José do 8° ano, pois o mesmo acabou de entregar a carta de advertência assinada pelo responsável". A forma correta é bastante simples, basta substituir "o mesmo" pelo pronome pessoal adequado: "ele" (...pois ele acabou de entregar a carta...).
"Ele é uma pessoa extremamente caridosa e espera que eu faça o mesmo". Na frase, o verbo vicário (fazer) e o pronome demonstrativo "mesmo" (que equivale a isso), juntos, evitam a repetição do conteúdo da oração anterior. Temos, portanto, um exemplo correto do emprego da palavra "mesmo".
Já não é o caso do seguinte exemplo: "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado das mesmas". O emprego incorreto deve ser corrigido para "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado delas".
Disponível em: http://educacao.uol.com.br/portugues/mesmo-voce-sabe-utilizar-o-pronome.jhtm
Quem lê a frase percebe que ela é um pouco "estranha": quem é "o mesmo", que poderia estar parado no andar? Mas o que muita gente não sabe é que o motivo dessa estranheza é o emprego inadequado da palavra.
A placa que encontramos na porta dos elevadores é consequência de uma lei municipal aprovada pela Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. A norma obriga todos os edifícios da cidade a terem a tal placa na porta dos elevadores. E a lei estendeu-se por todo o país, difundindo o erro de gramática em edifícios de todo o Brasil.
O motivo do erro é simples. Diz a gramática que não se deve usar a palavra "mesmo" como pronome pessoal. A frase colocada nas placas dos elevadores deveria ser corrigida, e a palavra "mesmo" substituída por "ele": "verifique se ele se encontra..."
Esse erro ocorre porque, para evitar a repetição, muita gente utiliza "o mesmo", "a mesma", já que os pronomes "ele" e "ela" devem ser usados com cuidado. Na frase: "Conversamos com o juiz e o mesmo afirmou que...", tem-se a impressão de que não existe erro, uma vez que, para muitos, esse é um exemplo que segue rigorosamente a norma culta. No entanto, frases como essa são deselegantes. O melhor é substituir a palavra "mesmo" por um pronome pessoal "e ele afirmou que..." ou por um pronome relativo "o qual afirmou que...".
Outro exemplo corriqueiro: "Favor desconsiderar o nome do aluno José do 8° ano, pois o mesmo acabou de entregar a carta de advertência assinada pelo responsável". A forma correta é bastante simples, basta substituir "o mesmo" pelo pronome pessoal adequado: "ele" (...pois ele acabou de entregar a carta...).
Mesmo como pronome demonstrativo
Na verdade, o pronome "mesmo" é demonstrativo. Sua função é retomar uma oração ou reforçar um termo de natureza substantiva. Dessa forma, tem-se:"Ele é uma pessoa extremamente caridosa e espera que eu faça o mesmo". Na frase, o verbo vicário (fazer) e o pronome demonstrativo "mesmo" (que equivale a isso), juntos, evitam a repetição do conteúdo da oração anterior. Temos, portanto, um exemplo correto do emprego da palavra "mesmo".
Já não é o caso do seguinte exemplo: "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado das mesmas". O emprego incorreto deve ser corrigido para "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado delas".
Sem medo do 'mesmo'
Para usar corretamente a palavra "mesmo", observe as seguintes regras:- A palavra "mesmo" pode ser usada com valor reforçativo: "Ele mesmo recebeu os convidados". "Ela mesma recebeu os convidados".
- A palavra "mesmo" como adjetivo, com sentido de adequado, conveniente, exato, idêntico etc.: "Seu projeto é mais bom que ruim. Forma correta de se usar o adjetivo, pois se comparam qualidades de um mesmo ser".
- "A leitura é ela mesma infinita".
- A palavra "mesmo" e o período composto por subordinação (as formas reduzidas são mais enfáticas): "Mesmo ferido no braço, o assaltante voltou para a sala de projeção e assistiu ao fim do filme". Por ser um texto jornalístico, optou-se pela forma reduzida da oração subordinada adverbial. "Mesmo que", "ainda que" e "embora" são conjunções adverbiais concessivas que exprimem um fato contrário ao da oração principal.
- A palavra "mesmo" usada como advérbio. Nesse caso, a palavra "mesmo" possui sentido de "até", "ainda" etc: "Ele recebeu os primeiros socorros próximo à praia, mas como seu estado de saúde era bom, foi liberado ontem mesmo". "De acordo com as empresas especializadas, ainda são muito poucas, mesmo nas grandes capitais, as instituições que adotam circuito fechado de tevê (CFTV) com sistema digital, que, assim, promete ser a grande vedete da segurança nas escolas nos próximos anos".
- Expressões como "dar na mesma"; "na mesma" ou "dar no mesmo". Essas expressões são corretas e indicam o sentido de "no mesmo estado", "na mesma situação": "A sua situação continua na mesma". "Com rendimentos tão baixos, deixar o dinheiro na conta corrente ou na poupança dá no mesmo".
Disponível em: http://educacao.uol.com.br/portugues/mesmo-voce-sabe-utilizar-o-pronome.jhtm
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