Segredos, mistérios, curiosidades... da nossa Língua Portuguesa.
sábado, 27 de outubro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Formas que se encaixam
| Mais do que ao conteúdo, é preciso estar atento à forma como muitos textos apresentam suas mensagens para melhor compreendê-los | |
Sírio Possenti Mas há muitos textos cuja finalidade não é comunicar, muito menos informar. É perfeitamente possível que eles também deem um recado, tenham um "conteúdo" ou sejam uma tomada de posição (sobre a vida, a poesia, etc.). Mas o fundamental, nesses casos, não está no recado, mas na maneira de dar este recado. Melhor: o recado é o que é especialmente porque é dado de uma forma determinada. Considere-se o slogan da Petrobras: "o desafio é a nossa energia". Que não se pergunte a ninguém, por favor, qual é o desafio da Petrobras. Ou, pelo menos, que não se pergunte só isso. É que esse slogan é o que é exatamente porque tem uma dupla leitura. E o recado do slogan é a dupla leitura, não apenas uma delas: o slogan diz que o desafio da empresa é a energia, isto é, encontrar, produzir a energia, a nossa energia ("nossa" quer dizer do país, provavelmente). Um dos sentidos é, então 'temos o desafio de produzir a energia de que o país precisa". Mas o outro sentido é tão importante quanto esse, e ele se refere ao funcionamento da empresa: o desafio a que a empresa é submetida é a energia da empresa - aqui, "nossa" quer dizer 'da empresa' (como quem diz: somos movidos a desafios, é o desafio que nos move, ele é a nossa energia - e não o sucesso, ou os salários, etc.). Como esse efeito é obtido? Um dos sentidos do verbo "ser" é de inclusão de uma classe em outra ("os homens são mortais" quer dizer que os homens pertencem ao conjunto das criaturas mortais, classe que contém outros elementos além dos homens, como os dinossauros e as pulgas...). Outro efeito é o de identificação. Um exemplo é "Brasília é capital do Brasil", que não é lida como significando que Brasília é uma das capitais do Brasil, mas como equivalente de "a capital do Brasil é Brasília" (faço de conta que não se coloca aqui um clássico problema, o da diferença entre "Brasília é capital do Brasil" e "Brasília é Brasília", que Frege teria resolvido). Ora, o slogan joga com os dois sentidos, captáveis em duas formulações: 'o desafio é nossa energia' e 'a energia é nosso desafio'. Em cada caso há um implícito, que coloco entre parênteses: 'o desafio é nossa energia (a que nos move)', '(produzir) energia é nosso desafio'. Forma Este tipo de leitura, que leva em conta explicitamente a forma, é ainda mais importante em textos cuja finalidade principal não é "uma mensagem" (embora ela possa existir e ser relevante), mas "ser poesia" ou "ser piada". Considere-se o seguinte poema, que se tornou bastante conhecido, cujo título é RECEITA DE HERÓI (de Reinaldo Ferreira): "Tome-se um homem feito de nada Como nós, em tamanho natural Embeba-se-lhe a carne Lentamente De uma certeza aguda, irracional Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim Agite-se um pendão E toque-se um clarim. Serve-se morto" O título ajuda a ler o texto. Pode-se verificar que as quatro partes do poema correspondem a partes de uma receita culinária (resumo: pegue dois quilos de costela, tempere com sal grosso, (ponha na grelha), deixe assar durante duas horas e sirva com mandioca cozida). "Ponha na grelha" está entre parênteses porque é uma etapa da receita que não tem correspondente no poema. Uma das leituras deste poema, digamos, a informativa, mostrará que ele considera que o herói é um homem comum, que, mais ou menos fanatizado, é levado a morrer. Palavras como "pendão" e "clarim" indicam que se trata de um herói (ou de um anti-herói) militar: um anônimo que é levado a morrer por uma causa (de outros, talvez). O poema também diz, de certa forma, que heróis deste tipo podem ser produzidos em série. Segundo esta leitura, trata-se de um herói diferente dos que cultivamos habitualmente, que são uma espécie de super-homem ou semideus (inspirado talvez nas epopeias). Mas esta leitura é apenas meia leitura. Ou menos do que isso. Porque o fundamental nesse poema é sua forma, a de receita, que é exatamente o tipo de texto que ensina a fazer coisas em série. Se há uma mensagem, ela é apresentada da melhor das maneiras conhecidas, em um texto de grande eficácia "pragmática". Explicitar esse fato é o que mais importa. E, convenhamos, é algo difícil de fazer em testes ditos objetivos... Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto) |
Arquitetura das ideias
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terça-feira, 1 de novembro de 2011
Pleonasmos comprometem objetividade do texto dissertativo
Repetição de ideias pode descontar meio ponto na nota total da redação.
Projeto Educação dá exemplos de redundâncias que são vícios de linguagem.
domingo, 23 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Está em dúvida sobre o uso de "mesmo" ou "mesma"?
Mesmo
Você sabe utilizar o pronome?
Solange L. Marcondes*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A célebre plaquinha e o erro crasso que geraram comunidades no Orkut |
"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar". A frase, colada ao lado da porta de elevadores em cada andar dos edifícios, traz o pronome "mesmo" empregado de maneira incorreta e virou motivo de piada na Internet.
Quem lê a frase percebe que ela é um pouco "estranha": quem é "o mesmo", que poderia estar parado no andar? Mas o que muita gente não sabe é que o motivo dessa estranheza é o emprego inadequado da palavra.
A placa que encontramos na porta dos elevadores é consequência de uma lei municipal aprovada pela Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. A norma obriga todos os edifícios da cidade a terem a tal placa na porta dos elevadores. E a lei estendeu-se por todo o país, difundindo o erro de gramática em edifícios de todo o Brasil.
O motivo do erro é simples. Diz a gramática que não se deve usar a palavra "mesmo" como pronome pessoal. A frase colocada nas placas dos elevadores deveria ser corrigida, e a palavra "mesmo" substituída por "ele": "verifique se ele se encontra..."
Esse erro ocorre porque, para evitar a repetição, muita gente utiliza "o mesmo", "a mesma", já que os pronomes "ele" e "ela" devem ser usados com cuidado. Na frase: "Conversamos com o juiz e o mesmo afirmou que...", tem-se a impressão de que não existe erro, uma vez que, para muitos, esse é um exemplo que segue rigorosamente a norma culta. No entanto, frases como essa são deselegantes. O melhor é substituir a palavra "mesmo" por um pronome pessoal "e ele afirmou que..." ou por um pronome relativo "o qual afirmou que...".
Outro exemplo corriqueiro: "Favor desconsiderar o nome do aluno José do 8° ano, pois o mesmo acabou de entregar a carta de advertência assinada pelo responsável". A forma correta é bastante simples, basta substituir "o mesmo" pelo pronome pessoal adequado: "ele" (...pois ele acabou de entregar a carta...).
"Ele é uma pessoa extremamente caridosa e espera que eu faça o mesmo". Na frase, o verbo vicário (fazer) e o pronome demonstrativo "mesmo" (que equivale a isso), juntos, evitam a repetição do conteúdo da oração anterior. Temos, portanto, um exemplo correto do emprego da palavra "mesmo".
Já não é o caso do seguinte exemplo: "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado das mesmas". O emprego incorreto deve ser corrigido para "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado delas".
Disponível em: http://educacao.uol.com.br/portugues/mesmo-voce-sabe-utilizar-o-pronome.jhtm
Quem lê a frase percebe que ela é um pouco "estranha": quem é "o mesmo", que poderia estar parado no andar? Mas o que muita gente não sabe é que o motivo dessa estranheza é o emprego inadequado da palavra.
A placa que encontramos na porta dos elevadores é consequência de uma lei municipal aprovada pela Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. A norma obriga todos os edifícios da cidade a terem a tal placa na porta dos elevadores. E a lei estendeu-se por todo o país, difundindo o erro de gramática em edifícios de todo o Brasil.
O motivo do erro é simples. Diz a gramática que não se deve usar a palavra "mesmo" como pronome pessoal. A frase colocada nas placas dos elevadores deveria ser corrigida, e a palavra "mesmo" substituída por "ele": "verifique se ele se encontra..."
Esse erro ocorre porque, para evitar a repetição, muita gente utiliza "o mesmo", "a mesma", já que os pronomes "ele" e "ela" devem ser usados com cuidado. Na frase: "Conversamos com o juiz e o mesmo afirmou que...", tem-se a impressão de que não existe erro, uma vez que, para muitos, esse é um exemplo que segue rigorosamente a norma culta. No entanto, frases como essa são deselegantes. O melhor é substituir a palavra "mesmo" por um pronome pessoal "e ele afirmou que..." ou por um pronome relativo "o qual afirmou que...".
Outro exemplo corriqueiro: "Favor desconsiderar o nome do aluno José do 8° ano, pois o mesmo acabou de entregar a carta de advertência assinada pelo responsável". A forma correta é bastante simples, basta substituir "o mesmo" pelo pronome pessoal adequado: "ele" (...pois ele acabou de entregar a carta...).
Mesmo como pronome demonstrativo
Na verdade, o pronome "mesmo" é demonstrativo. Sua função é retomar uma oração ou reforçar um termo de natureza substantiva. Dessa forma, tem-se:"Ele é uma pessoa extremamente caridosa e espera que eu faça o mesmo". Na frase, o verbo vicário (fazer) e o pronome demonstrativo "mesmo" (que equivale a isso), juntos, evitam a repetição do conteúdo da oração anterior. Temos, portanto, um exemplo correto do emprego da palavra "mesmo".
Já não é o caso do seguinte exemplo: "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado das mesmas". O emprego incorreto deve ser corrigido para "Aos repórteres, o bandeirinha que anulou o gol afirmou conhecer as novas regras e o significado delas".
Sem medo do 'mesmo'
Para usar corretamente a palavra "mesmo", observe as seguintes regras:- A palavra "mesmo" pode ser usada com valor reforçativo: "Ele mesmo recebeu os convidados". "Ela mesma recebeu os convidados".
- A palavra "mesmo" como adjetivo, com sentido de adequado, conveniente, exato, idêntico etc.: "Seu projeto é mais bom que ruim. Forma correta de se usar o adjetivo, pois se comparam qualidades de um mesmo ser".
- "A leitura é ela mesma infinita".
- A palavra "mesmo" e o período composto por subordinação (as formas reduzidas são mais enfáticas): "Mesmo ferido no braço, o assaltante voltou para a sala de projeção e assistiu ao fim do filme". Por ser um texto jornalístico, optou-se pela forma reduzida da oração subordinada adverbial. "Mesmo que", "ainda que" e "embora" são conjunções adverbiais concessivas que exprimem um fato contrário ao da oração principal.
- A palavra "mesmo" usada como advérbio. Nesse caso, a palavra "mesmo" possui sentido de "até", "ainda" etc: "Ele recebeu os primeiros socorros próximo à praia, mas como seu estado de saúde era bom, foi liberado ontem mesmo". "De acordo com as empresas especializadas, ainda são muito poucas, mesmo nas grandes capitais, as instituições que adotam circuito fechado de tevê (CFTV) com sistema digital, que, assim, promete ser a grande vedete da segurança nas escolas nos próximos anos".
- Expressões como "dar na mesma"; "na mesma" ou "dar no mesmo". Essas expressões são corretas e indicam o sentido de "no mesmo estado", "na mesma situação": "A sua situação continua na mesma". "Com rendimentos tão baixos, deixar o dinheiro na conta corrente ou na poupança dá no mesmo".
Disponível em: http://educacao.uol.com.br/portugues/mesmo-voce-sabe-utilizar-o-pronome.jhtm
Veja cinco dicas para fazer uma boa redação
1
Dissertação e narração
O candidato precisa saber a diferença entre dissertação e narração. "O texto dissertativo é aquele por meio do qual se faz comentário a respeito de uma questão em debate e o comentário é expresso de maneira direta por meio de conceitos e julgamentos. Diferente do texto narrativo, em que a opinião está implícita"2
Leitura da coletânea
A prova de redação começa com uma leitura atenta da proposta. "O aluno costuma pegar um trecho isolado, que lhe é mais familiar, esquecendo que na proposta tudo é correlacionado. Tem que ler o que está na coletânea e não o que está na cabeça dele"3
Posicionamento
"É preciso assumir uma posição. O que se quer medir com isso é se o candidato já tem opinião própria, se tem capacidade de fazer uma reflexão personalizada"4
Argumentação
"É preciso argumentar bem. O argumento não é prova de verdade. O argumento é bom quando tem relação com que pretende sustentar e quando é pouco refutável."5
Capriche na linguagem
Além da correção gramatical, o candidato deve organizar bem as frases. "Pegue a sua própria linguagem e escreva com capricho. Não tente usar termos que você desconhece."
sábado, 8 de outubro de 2011
DO ENEM PARA A VIDA
Do Enem para a vida | |
| 10 dicas para a prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio que são úteis também no dia a dia | |
Atenção ao que se propõe - Uma leitura cuidadosa da proposta de redação evita que o candidato fuja do tema ou só o tangencie. Examine a antologia - Trechos selecionados pela prova cumprem a tarefa de provocar a reflexão acerca da situação-problema em questão. Siga as instruções - Desrespeitar o mínimo de 8 e o máximo de 30 linhas escritas, bem como não entregar a prova à tinta, podem desclassificar o candidato. Faça um rascunho - É nessa etapa que se organizam as ideias, esquematizando-as em parágrafos para que se organizem segundo a estrutura clássica da dissertação: introdução (apresentação da tese a ser defendida); desenvolvimento (argumentos que justifiquem a tese); conclusão (parágrafo final em que se expõe uma solução ou desfecho para o tema). Norma culta - O domínio da língua não implica necessariamente um texto rebuscado. O ideal é que seja correto e simples. Convém evitar períodos longos demais e vocabulário pedante, bem como clichês e generalizações vazias. Marcas de oralidade - Expressões da fala cotidiana, como "né", "ok" ou "tá, por exemplo, não têm lugar numa redação. Palavras obscenas também devem ser evitadas, a menos que indispensáveis ao tratamento do assunto. Sem internetês - Abreviações do tipo "vc", "hj", "td", etc., podem tirar pontos de uma redação que não está na situação de comunicação que exige o internetês. Nenhum leitor é obrigado a entender a linguagem dos computadores. Convém não usar nenhum tipo de abreviação não explicada, pois se corre o risco de fazer uma abreviação equivocada. Manter a pessoa do discurso - Convém manter a mesma pessoa do discurso ao longo de todo o texto - seja a 3ª do singular ("entende-se que ela tenha agido assim...") ou a 1ª do plural ("vivemos uma era tecnológica..."). Revisão final - É aconselhável ler o texto depois de terminá-lo, para que não passem possíveis deslizes gramaticais, erros de concordância, etc. Além disso, repetições e redundâncias, comuns quando se escreve com pressa, podem colocar a redação a perder. Exercite - Escrever e reescrever textos ajuda a criar hábito. |
Disponível em: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12359
Cuidado com a crase
| O sinal indicativo da crase sobrevive apesar de seus detratores; saber empregá-lo pode reforçar a mensagem e evitar dúvidas de sentido | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Chico Viana Reconhecendo que a crase parecia mesmo ter-se transformado num "grave problema ortográfico e existencial", o poeta Ferreira Gullar cunhou há décadas aforismos sobre o assunto. O mais popular deles é o de que "a crase não foi feita para humilhar ninguém". Gullar a defendia, criticando escritores, jornalistas e escrevinhadores que "tremiam diante de certos aa", mas suas palavras acabaram servindo de argumento aos que a detratavam. Entendeu-se que ele pretendia livrar as pessoas da dolorosa obrigação de crasear, e não aconselhá-las a estudar português. Uma das justificativas de Hermann para seu projeto foi a de que a crase "só serve para humilhar". Dava a entender que a extinção do "acento" (sic) pouparia os brasileiros do vexame de não saber usá-lo. (...)
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A informática e suas armadilhas
PASQUALE CIPRO NETO
NA SEMANA passada, mencionei a falta que fazem as aulas de filosofia no ensino médio. Na verdade, não é só no ensino médio que elas fazem falta. A julgar pelo que se vê nas decisões tomadas por profissionais de nível superior de diversas áreas do saber, também na universidade a filosofia e a lógica parecem artigo raro.
Um bom exemplo se vê nos "corretores ortográficos" de certos programas instalados nos computadores. Escrevo este texto no Word e vejo que o tal corretor me "corrigiu" quando, no parágrafo anterior, escrevi "a falta que fazem as aulas...". O geniozinho quer que eu troque "a falta que fazem as aulas" por "as faltas que fazem..." Sem comentário.
Bem, pensando melhor, com comentário (com perdão pela cacofonia de "com comentário"). A coisa já começa mal no nome da tal ferramenta ("corretor ortográfico"). Como se sabe, a ortografia se ocupa da sistematização da grafia, que deve seguir as convenções adotadas. Se houvesse "erro" (não há) em "a falta que fazem as aulas de filosofia" e se o certo fosse "as faltas que fazem as aulas...", o problema seria de sintaxe, e não de ortografia.
Se o corretor ortográfico quiser ser de fato um corretor ortográfico, deve limitar-se a apontar erros de grafia, ou seja, deve grifar "excessão", "ascenção", "hortência" e casos afins. E é só o que o infeliz do programa consegue fazer direito, visto que, se alguém escrever "secretaria" em vez de "secretária", "esta" em vez de "está", "saia" em vez de "saía" ou "republica" em vez de "república", o "corretor" nada dirá, por uma razão bem simples: ele lê mal, ou melhor, não sabe ler mesmo.
Quem programa esses programas (com novo perdão, desta vez pela redundância) ainda não conseguiu fazer algo efetivamente bom no que diz respeito a apontar problemas de construção de texto (nexo, concordância, propriedade vocabular etc).
Quer ver outra delícia da informática? Prepare-se. A greve dos correios nos priva do recebimento de diversas contas, cujos emissores querem que nos lasquemos, ou seja, ou pagamos em dia ou pagamos em dia, do contrário...
Pois bem. Entrei no site de uma das empresas que me prestam (des)serviço. Entrei, é claro, para obter a segunda via da conta (a primeira deve estar presa em alguma montanha de correspondência não entregue). Descobri que é preciso cadastrar-se para obter a segunda via. Lá fui eu, fiel cordeirinho. Preenchi isto e aquilo até que... Até que se pedem duas informações que se obtêm numa conta da tal empresa... Belíssima piada, e das brabas!
Como posso ter à mão dados que constam numa conta da empresa se estou pedindo a segunda via de uma conta dessa empresa? Antes que alguém diga que basta pegar uma conta antiga... É melhor parar! Se estou no inferno, não tenho conta antiga comigo (há coisas melhores para levar para o inferno). Se quero pagar a conta atual, como faço, senhores gênios? Penduro-me no e ao telefone, ouço aqueles menus iniciais mais do que idiotas e espero sabe Deus quanto tempo até que alguém se disponha a me fornecer o código de barras, que terei de anotar ? E se estou no exterior? Como faço? Elaiá!
O fato, caro leitor, é que a muita gente pensar dói, mas, quando essa gente a quem pensar dói interfere na nossa vida... Aula de lógica neles! Que tal aprender a pensar, por exemplo, em "se isto, então aquilo"? Que tal aprender a prever? É isso.
Texto publicado na Folha de São Paulo - 06/10/2011
Quando essa gente a quem pensar dói interfere na nossa vida... Aula de lógica neles! Que tal aprender a prever? |
NA SEMANA passada, mencionei a falta que fazem as aulas de filosofia no ensino médio. Na verdade, não é só no ensino médio que elas fazem falta. A julgar pelo que se vê nas decisões tomadas por profissionais de nível superior de diversas áreas do saber, também na universidade a filosofia e a lógica parecem artigo raro.
Um bom exemplo se vê nos "corretores ortográficos" de certos programas instalados nos computadores. Escrevo este texto no Word e vejo que o tal corretor me "corrigiu" quando, no parágrafo anterior, escrevi "a falta que fazem as aulas...". O geniozinho quer que eu troque "a falta que fazem as aulas" por "as faltas que fazem..." Sem comentário.
Bem, pensando melhor, com comentário (com perdão pela cacofonia de "com comentário"). A coisa já começa mal no nome da tal ferramenta ("corretor ortográfico"). Como se sabe, a ortografia se ocupa da sistematização da grafia, que deve seguir as convenções adotadas. Se houvesse "erro" (não há) em "a falta que fazem as aulas de filosofia" e se o certo fosse "as faltas que fazem as aulas...", o problema seria de sintaxe, e não de ortografia.
Se o corretor ortográfico quiser ser de fato um corretor ortográfico, deve limitar-se a apontar erros de grafia, ou seja, deve grifar "excessão", "ascenção", "hortência" e casos afins. E é só o que o infeliz do programa consegue fazer direito, visto que, se alguém escrever "secretaria" em vez de "secretária", "esta" em vez de "está", "saia" em vez de "saía" ou "republica" em vez de "república", o "corretor" nada dirá, por uma razão bem simples: ele lê mal, ou melhor, não sabe ler mesmo.
Quem programa esses programas (com novo perdão, desta vez pela redundância) ainda não conseguiu fazer algo efetivamente bom no que diz respeito a apontar problemas de construção de texto (nexo, concordância, propriedade vocabular etc).
Quer ver outra delícia da informática? Prepare-se. A greve dos correios nos priva do recebimento de diversas contas, cujos emissores querem que nos lasquemos, ou seja, ou pagamos em dia ou pagamos em dia, do contrário...
Pois bem. Entrei no site de uma das empresas que me prestam (des)serviço. Entrei, é claro, para obter a segunda via da conta (a primeira deve estar presa em alguma montanha de correspondência não entregue). Descobri que é preciso cadastrar-se para obter a segunda via. Lá fui eu, fiel cordeirinho. Preenchi isto e aquilo até que... Até que se pedem duas informações que se obtêm numa conta da tal empresa... Belíssima piada, e das brabas!
Como posso ter à mão dados que constam numa conta da empresa se estou pedindo a segunda via de uma conta dessa empresa? Antes que alguém diga que basta pegar uma conta antiga... É melhor parar! Se estou no inferno, não tenho conta antiga comigo (há coisas melhores para levar para o inferno). Se quero pagar a conta atual, como faço, senhores gênios? Penduro-me no e ao telefone, ouço aqueles menus iniciais mais do que idiotas e espero sabe Deus quanto tempo até que alguém se disponha a me fornecer o código de barras, que terei de anotar ? E se estou no exterior? Como faço? Elaiá!
O fato, caro leitor, é que a muita gente pensar dói, mas, quando essa gente a quem pensar dói interfere na nossa vida... Aula de lógica neles! Que tal aprender a pensar, por exemplo, em "se isto, então aquilo"? Que tal aprender a prever? É isso.
Texto publicado na Folha de São Paulo - 06/10/2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Uma aula do grande mestre Tostão
PASQUALE CIPRO NETO
"A POESIA NÃO CANSA", disse o mais do que querido Tostão em sua belíssima coluna de ontem. Peço licença ao caro companheiro de muitos belos momentos vividos no ano passado, na África do Sul, para reproduzir trechos de seu texto:
"A criatividade, segundo estudos científicos, surge e se desenvolve na infância. As escolinhas (...) podem prejudicar a formação dos garotos. Eles deveriam, primeiro, brincar com a bola, se divertir, descobrir e aprimorar a habilidade e a fantasia para, depois, aprender as regras, a técnica e a tática. (...) As escolinhas costumam fazer o contrário. (...) Juan Pablo Varsky, argentino, colunista do 'La Nación', escreveu, há alguns dias, que o Barcelona é a poesia em movimento. Belíssimo. Acrescento que a maioria das outras equipes é o movimento sem poesia. Boa poesia não cansa. Extasia, mesmo quando o time empata, perde e até joga mal. (...) Logo após a final da Copa de 1970, o cineasta e poeta Pasolini escreveu que a Itália jogava como prosa, e o Brasil, como poesia. Hoje, o futebol italiano e o brasileiro são muito parecidos, pela marcação, pelos lançamentos longos e pelas jogadas aéreas. Jogam como prosa. A poesia ocorre em lances isolados. A prosa e a poesia são necessárias. Seria maravilhoso se o Brasil jogasse mais como poesia que como prosa".
Eu poderia simplesmente dizer que, mutatis mutandis, o magnífico texto de Tostão poderia se referir não só às escolas ("escolinhas") de futebol, mas também (e sobretudo) às escolas "normais", aquelas em que se deveria aprender muita coisa que lá não se tem ensinado (vejam-se os resultados do último ENEM, divulgados segunda-feira -por falar em ENEM, sugiro ao leitor que passe os olhos no magnífico texto de Elio Gaspari, também de ontem).
O trecho em que Tostão fala da ordem que as coisas deveriam ter nas escolinhas de futebol tem tudo a ver com o que acontece, por exemplo, nas aulas de língua e literatura, sobretudo no ensino fundamental. Entopem-se os alunos de nomenclaturas e afins, enquanto o texto fica ali, clamando por que alguém descubra os seus "dribles", "chapéus", "canetas", "jogadas sem bola" etc. O resultado disso é uma leitura dura do mundo, da vida, do (não) saber.
Intertextualidade, então, é artigo raro. Textos e textos são lidos sem que se desvendem para os alunos as conversas entre o texto que se lê e aqueles com os quais o texto que se lê "conversa", ainda que seu autor não tenha propriamente querido fazer referência a eles. Dou um exemplo: se o texto de Tostão fosse parar numa aula de língua ou de literatura (por que não?), o/a professor/a poderia fazer referência a estes versos da antológica canção "Língua", de Caetano Veloso: "E sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor está para a amizade / E quem há de negar que esta lhe é superior?".
Bem, aí certamente caberia ao/à professor/a estabelecer os nexos que há entre o que Tostão e Pier Paolo Pasolini chamam de poesia e prosa no futebol e o que Caetano quer dizer com os seus versos. Para ilustrar o que são a poesia e a prosa no futebol, o/a professor/a poderia, por exemplo, apresentar um dos mais sublimes lances da história do futebol, do qual o grande Tostão participou. Refiro-me ao ANTOLÓGICO gol do Brasil contra a Inglaterra, na Copa de 70. Está ao alcance de todos no YouTube. Como dizia o meu querido e saudoso Walter Silva, "só a loucura cura". No nosso caso (professores), a loucura é fugir do comum, fazer pensar, mostrar o belo, o mágico, onde estiverem.
E viva o grande Tostão! É isso.
Texto publicado na Folha de São Paulo, 14/09/2011
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1509201103.htm
O magnífico texto de Tostão poderia se referir não só às 'escolinhas' de futebol, mas também às escolas 'normais' |
"A POESIA NÃO CANSA", disse o mais do que querido Tostão em sua belíssima coluna de ontem. Peço licença ao caro companheiro de muitos belos momentos vividos no ano passado, na África do Sul, para reproduzir trechos de seu texto:
"A criatividade, segundo estudos científicos, surge e se desenvolve na infância. As escolinhas (...) podem prejudicar a formação dos garotos. Eles deveriam, primeiro, brincar com a bola, se divertir, descobrir e aprimorar a habilidade e a fantasia para, depois, aprender as regras, a técnica e a tática. (...) As escolinhas costumam fazer o contrário. (...) Juan Pablo Varsky, argentino, colunista do 'La Nación', escreveu, há alguns dias, que o Barcelona é a poesia em movimento. Belíssimo. Acrescento que a maioria das outras equipes é o movimento sem poesia. Boa poesia não cansa. Extasia, mesmo quando o time empata, perde e até joga mal. (...) Logo após a final da Copa de 1970, o cineasta e poeta Pasolini escreveu que a Itália jogava como prosa, e o Brasil, como poesia. Hoje, o futebol italiano e o brasileiro são muito parecidos, pela marcação, pelos lançamentos longos e pelas jogadas aéreas. Jogam como prosa. A poesia ocorre em lances isolados. A prosa e a poesia são necessárias. Seria maravilhoso se o Brasil jogasse mais como poesia que como prosa".
Eu poderia simplesmente dizer que, mutatis mutandis, o magnífico texto de Tostão poderia se referir não só às escolas ("escolinhas") de futebol, mas também (e sobretudo) às escolas "normais", aquelas em que se deveria aprender muita coisa que lá não se tem ensinado (vejam-se os resultados do último ENEM, divulgados segunda-feira -por falar em ENEM, sugiro ao leitor que passe os olhos no magnífico texto de Elio Gaspari, também de ontem).
O trecho em que Tostão fala da ordem que as coisas deveriam ter nas escolinhas de futebol tem tudo a ver com o que acontece, por exemplo, nas aulas de língua e literatura, sobretudo no ensino fundamental. Entopem-se os alunos de nomenclaturas e afins, enquanto o texto fica ali, clamando por que alguém descubra os seus "dribles", "chapéus", "canetas", "jogadas sem bola" etc. O resultado disso é uma leitura dura do mundo, da vida, do (não) saber.
Intertextualidade, então, é artigo raro. Textos e textos são lidos sem que se desvendem para os alunos as conversas entre o texto que se lê e aqueles com os quais o texto que se lê "conversa", ainda que seu autor não tenha propriamente querido fazer referência a eles. Dou um exemplo: se o texto de Tostão fosse parar numa aula de língua ou de literatura (por que não?), o/a professor/a poderia fazer referência a estes versos da antológica canção "Língua", de Caetano Veloso: "E sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor está para a amizade / E quem há de negar que esta lhe é superior?".
Bem, aí certamente caberia ao/à professor/a estabelecer os nexos que há entre o que Tostão e Pier Paolo Pasolini chamam de poesia e prosa no futebol e o que Caetano quer dizer com os seus versos. Para ilustrar o que são a poesia e a prosa no futebol, o/a professor/a poderia, por exemplo, apresentar um dos mais sublimes lances da história do futebol, do qual o grande Tostão participou. Refiro-me ao ANTOLÓGICO gol do Brasil contra a Inglaterra, na Copa de 70. Está ao alcance de todos no YouTube. Como dizia o meu querido e saudoso Walter Silva, "só a loucura cura". No nosso caso (professores), a loucura é fugir do comum, fazer pensar, mostrar o belo, o mágico, onde estiverem.
E viva o grande Tostão! É isso.
Texto publicado na Folha de São Paulo, 14/09/2011
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1509201103.htm
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Crônica (opinião)
CARLOS HEITOR CONY
A língua da serpente
RIO DE JANEIRO - Li que, na Inglaterra, estão pensando em criar um filtro para controlar a comunicação pela internet -que está sendo acusada de incentivar distúrbios e distorções que prejudicam a sociedade e os cidadãos. Não deixa de ser uma tentativa de censura, mas o furo é mais em cima.
Nas antologias escolares de antigamente havia sempre um pequeno poema de Fagundes Varela que toda uma geração decorava. O poeta perguntava qual era a mais forte, a mais letal das armas e respondia: a língua humana. Nem mesmo com o arsenal nuclear de hoje a língua perdeu a "pole position" na escala da destruição de que é capaz.
Tudo começa lá atrás. Se dermos crédito à fábula bíblica, foi a língua da serpente que expulsou Adão e Eva do Éden, donde podemos concluir que, se a serpente não tivesse língua, ainda hoje estaríamos no paraíso terrestre.
A tecnologia ampliou a malignidade da língua, tudo se pode fazer com ou por meio dela. Não adianta o tal filtro dos ingleses, que pode, no máximo, controlar a pirataria dos veículos audiovisuais, mas jamais controlará a língua daquelas comadres machadianas, patuscas e atentas nas janelas, vigiando a vida dos vizinhos. Isso sem falar na língua de economistas, políticos, formadores de opinião, técnicos de futebol e, naturalmente, todos os tiranos que, periodicamente, ajudam a desgraçar a humanidade.
Em Roma, no início do fascismo, Mussolini (que era bom de lábia) perguntou ao povo reunido na piazza Venezia: "Quereis manteiga ou canhão?". O povo respondeu: "Canhão!". Hitler e Stálin não fizeram por menos.
Ainda bem que Hamlet concordava em parte com Fagundes Varela, quando encerrou seu dilema dizendo que "o resto é silêncio". Houvesse silêncio no mundo, sem as comadres machadianas e se as serpentes não tivessem língua, as coisas estariam melhores.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2508201105.htm
A língua da serpente
RIO DE JANEIRO - Li que, na Inglaterra, estão pensando em criar um filtro para controlar a comunicação pela internet -que está sendo acusada de incentivar distúrbios e distorções que prejudicam a sociedade e os cidadãos. Não deixa de ser uma tentativa de censura, mas o furo é mais em cima.
Nas antologias escolares de antigamente havia sempre um pequeno poema de Fagundes Varela que toda uma geração decorava. O poeta perguntava qual era a mais forte, a mais letal das armas e respondia: a língua humana. Nem mesmo com o arsenal nuclear de hoje a língua perdeu a "pole position" na escala da destruição de que é capaz.
Tudo começa lá atrás. Se dermos crédito à fábula bíblica, foi a língua da serpente que expulsou Adão e Eva do Éden, donde podemos concluir que, se a serpente não tivesse língua, ainda hoje estaríamos no paraíso terrestre.
A tecnologia ampliou a malignidade da língua, tudo se pode fazer com ou por meio dela. Não adianta o tal filtro dos ingleses, que pode, no máximo, controlar a pirataria dos veículos audiovisuais, mas jamais controlará a língua daquelas comadres machadianas, patuscas e atentas nas janelas, vigiando a vida dos vizinhos. Isso sem falar na língua de economistas, políticos, formadores de opinião, técnicos de futebol e, naturalmente, todos os tiranos que, periodicamente, ajudam a desgraçar a humanidade.
Em Roma, no início do fascismo, Mussolini (que era bom de lábia) perguntou ao povo reunido na piazza Venezia: "Quereis manteiga ou canhão?". O povo respondeu: "Canhão!". Hitler e Stálin não fizeram por menos.
Ainda bem que Hamlet concordava em parte com Fagundes Varela, quando encerrou seu dilema dizendo que "o resto é silêncio". Houvesse silêncio no mundo, sem as comadres machadianas e se as serpentes não tivessem língua, as coisas estariam melhores.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2508201105.htm
OPINIÃO
Sacolas para compras, como escolher?
HELIO MATTAR
O artigo de Miguel Bahiense, presidente do INP (Instituto Nacional do Plástico), publicado no dia 25 de julho nesta seção ("Sacolas plásticas: em vez de banir, educar"), faz uma recomendação incondicional e equivocada em favor do uso das sacolas plásticas descartáveis.
Por serem descartáveis, as sacolinhas são incompatíveis com um futuro sustentável no longo prazo.
Afinal, são gastas matérias-primas, água e energia, recursos da natureza, para gerar um produto usado poucas vezes e descartado com o lixo, em um processo com impactos ambientais envolvendo desde a extração das matérias-primas até o uso e descarte das sacolas, isto é, todo o "ciclo de vida" do produto.
É necessário avaliar os impactos comparativos dos diversos meios para transporte de compras, buscando a solução de menor impacto negativo. No começo de agosto, foi apresentado um estudo pioneiro, solicitado pela Braskem, maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, feito pela Fundação Espaço Eco, especializada em estudos de ciclo de vida, com métodos internacionalmente reconhecidos.
Compara a "ecoeficiência" de várias alternativas de transporte de compras, analisando o impacto ambiental da cadeia produtiva e os seus custos diante da tecnologia e dos métodos de produção atuais, com diversos cenários de uso e de descarte da sacola.
Os cenários variavam em volume de compras, frequência de idas ao supermercado, frequência de descarte do lixo, tipo de matéria-prima utilizada na produção das sacolas, capacidade de carga, custo de cada sacola, número de vezes em que é utilizada, reutilização ou não como saco de lixo e o envio ou não para reciclagem.
Ao variar cada um desses itens, muda o resultado do estudo. Por isso, o uso de um estudo inglês no artigo aqui comentado em defesa do uso das sacolas plásticas descartáveis no Brasil é totalmente equivocado: as condições ambientais, a matriz energética e os hábitos de compra do brasileiro são bastante distintos dos do inglês.
O estudo brasileiro concluiu que: (a) com o aumento do volume de compras, melhora a ecoeficiência das sacolas retornáveis; (b) com o aumento da frequência de ida ao supermercado, melhora a ecoeficiência das retornáveis; e (c) com o aumento da frequência de descarte do lixo, com reuso das descartáveis como saco de lixo, melhora a ecoeficiência das descartáveis.
Assim, a conclusão varia conforme as características das compras e descarte de cada consumidor, melhorando ou piorando a ecoeficiência. A única coisa que não varia é que a descartabilidade não será uma escolha sustentável a longo prazo. Valerá sempre mudar os hábitos de compra e descarte e as formas de transporte de compras buscando melhor ecoeficiência.
Para isso, é importante a educação do consumidor quanto aos impactos ambientais e sociais das escolhas de consumo, como no trabalho do Akatu com apoio da Braskem, envolvendo mais de 1.460 escolas públicas e privadas da rede do Faça Parte. Educado, o consumidor vai demandar mais estudos de ciclo de vida para poder escolher com ecoeficiência cada vez melhor.
HELIO MATTAR, mestre e doutor em engenharia industrial pela Universidade Stanford (EUA), é diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2908201108.htm
HELIO MATTAR
É preciso avaliar os impactos comparativos dos diversos meios para transportar as compras, buscando a solução de menor impacto negativo |
O artigo de Miguel Bahiense, presidente do INP (Instituto Nacional do Plástico), publicado no dia 25 de julho nesta seção ("Sacolas plásticas: em vez de banir, educar"), faz uma recomendação incondicional e equivocada em favor do uso das sacolas plásticas descartáveis.
Por serem descartáveis, as sacolinhas são incompatíveis com um futuro sustentável no longo prazo.
Afinal, são gastas matérias-primas, água e energia, recursos da natureza, para gerar um produto usado poucas vezes e descartado com o lixo, em um processo com impactos ambientais envolvendo desde a extração das matérias-primas até o uso e descarte das sacolas, isto é, todo o "ciclo de vida" do produto.
É necessário avaliar os impactos comparativos dos diversos meios para transporte de compras, buscando a solução de menor impacto negativo. No começo de agosto, foi apresentado um estudo pioneiro, solicitado pela Braskem, maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, feito pela Fundação Espaço Eco, especializada em estudos de ciclo de vida, com métodos internacionalmente reconhecidos.
Compara a "ecoeficiência" de várias alternativas de transporte de compras, analisando o impacto ambiental da cadeia produtiva e os seus custos diante da tecnologia e dos métodos de produção atuais, com diversos cenários de uso e de descarte da sacola.
Os cenários variavam em volume de compras, frequência de idas ao supermercado, frequência de descarte do lixo, tipo de matéria-prima utilizada na produção das sacolas, capacidade de carga, custo de cada sacola, número de vezes em que é utilizada, reutilização ou não como saco de lixo e o envio ou não para reciclagem.
Ao variar cada um desses itens, muda o resultado do estudo. Por isso, o uso de um estudo inglês no artigo aqui comentado em defesa do uso das sacolas plásticas descartáveis no Brasil é totalmente equivocado: as condições ambientais, a matriz energética e os hábitos de compra do brasileiro são bastante distintos dos do inglês.
O estudo brasileiro concluiu que: (a) com o aumento do volume de compras, melhora a ecoeficiência das sacolas retornáveis; (b) com o aumento da frequência de ida ao supermercado, melhora a ecoeficiência das retornáveis; e (c) com o aumento da frequência de descarte do lixo, com reuso das descartáveis como saco de lixo, melhora a ecoeficiência das descartáveis.
Assim, a conclusão varia conforme as características das compras e descarte de cada consumidor, melhorando ou piorando a ecoeficiência. A única coisa que não varia é que a descartabilidade não será uma escolha sustentável a longo prazo. Valerá sempre mudar os hábitos de compra e descarte e as formas de transporte de compras buscando melhor ecoeficiência.
Para isso, é importante a educação do consumidor quanto aos impactos ambientais e sociais das escolhas de consumo, como no trabalho do Akatu com apoio da Braskem, envolvendo mais de 1.460 escolas públicas e privadas da rede do Faça Parte. Educado, o consumidor vai demandar mais estudos de ciclo de vida para poder escolher com ecoeficiência cada vez melhor.
HELIO MATTAR, mestre e doutor em engenharia industrial pela Universidade Stanford (EUA), é diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2908201108.htm
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Metáforas...
SERENATA
Flauta e violão na trova da rua
Que é uma treva rolando da montanha
Fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
A música viola o domicílio
E põe rosas no leito da donzela.
(Serenata - Carlos Drummond de Andrade)
Flauta e violão na trova da rua
Que é uma treva rolando da montanha
Fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
A música viola o domicílio
E põe rosas no leito da donzela.
(Serenata - Carlos Drummond de Andrade)
INTOLERÁVEL
Corrupção mata. Entender isso é fundamental para atacar um dos males que mais empatam o desenvolvimento socioeconômico e político do Brasil. Ainda há quem não veja a conexão entre corrupção e violência, mas elas estão intimamente ligadas.
Da mesma forma, devemos entender que a baixa eficiência e o mau funcionamento dos serviços do Estado estão tremendamente relacionados à cultura da corrupção, ao patrimonialismo, à falta de transparência e à baixa capacidade de mobilização social.
A morte da juíza Patrícia Acioli, no Rio, não é apenas um crime brutal. A execução de uma servidora pública correta e rigorosa com os crimes, principalmente os cometidos por agentes públicos, revela a força que as máfias têm no país. E o tamanho que elas adquiriram, graças à corrupção.
Quando a propina chancela e incentiva o desvio de conduta, torna-o cada vez maior. E chega a um ponto em que vê na lei um obstáculo que precisa ser removido, tirando do caminho quem a faz cumprir.
É na má política que se choca o ovo da serpente da violência policial e das relações espúrias entre poder de Estado e delinquência. Quem assistiu aos filmes de José Padilha “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2″ pode ver como a propina de todo dia fortalece a mão que aperta o gatilho contra os inocentes.
A morte de Patrícia Acioli é uma afronta ao Estado democrático de Direito. Ela não é apenas mais uma vítima. Era alguém que, no desempenho de suas funções, buscava combater a barbárie de grupos que querem controlar a vida de quem mora na periferia e, claro, o próprio Estado.
Matar uma juíza revela enorme convicção da própria impunidade. É uma declaração de guerra às leis, à democracia e à sociedade. Assim como é inaceitável que o Brasil conviva com a execução de uma juíza, também não é mais tolerável convivermos com o nível de corrupção que tem marcado o nosso país.
Vemos, na mídia, como a Índia, país com problemas maiores do que os nossos, desperta vigorosamente para o combate à corrupção. E o que falta para o Brasil? Quanto mais indignada for a resposta da sociedade aos escândalos e aos homicídios de cada dia, maior será o poder de reação contra essas mazelas no âmbito do próprio Estado.
A autoridade pública da menor à maior se sentirá fortalecida e incentivada a agir contra a corrupção, que é, em si, uma forma de violência contra a coletividade.
A faxina, então, deixa de ser rápida, como se faz quando chega uma visita inesperada, e passa a ser permanente, vigorosa, profunda. É desse nível de exigência que precisamos. Se nos acostumarmos a deixar barato, perderemos o controle do que é público, do que é de todos nós.
* Artigo da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 19 de agosto de 2011.
domingo, 7 de agosto de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
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